Na rua, a luz amarelada de um poste antigo, desses feito de trilho de estrada de ferro. Entre ele e a minha janela aberta o muro no jardim. O foco luminoso, passando sobre o muro, transfere para a parede do meu quarto sombras que se movem como numa tela de cinema. Tão logo anoitece há um interminável movimento de insetos, cujas antenas parecem triplicadas de tamanho, que voam e pousam, andam e param, se entregam à sanha dos predadores. Abocanhando suas presas as lagartixas tomam a forma de gigantescos sáurios pré-históricos e o gato, que acaba de passar, lembra-me um tigre de andar ondulado e intenções definidas. Os morcegos não passam diante da luz, mas deixam o ruído de suas asas, impressionando meus ouvidos e minha mente. Junto à lâmpada as teias balançam sopradas pela aragem ou pelo movimento das aranhas em sua faina noturna. E estas, quando alcançam por alguns segundos o facho luminoso, tornam sua imagem tétrica, liberando minhas fantasias, que vão buscar distante o pio das corujas. À noite, na parede de meu quarto, as silhuetas mudam constantemente, intercalando atrações que me divertem e me assustam. Habituei-me a deitar de rosto voltado para as cenas bizarras, distraindo-me com as sombras enquanto espero o sono chegar. Às vezes acordo de madrugada e repito o exercício para dormir.
Certa vez, num desses intervalos de sono, assustei-me com um forte barulho e cheguei a ver o vulto ágil de um enorme rato escapando através da janela. Dei-me conta de que exagerava na imaginação ou, talvez, por algum fenômeno inexplicável a projeção se ampliara de maneira insólita, passando a impressão de que o bicho tinha o tamanho de uma criança. Fazia tempo que andavam sumindo bombons que eu geralmente comprava, o único luxo permitido pelo meu salário minguado. Todos os hóspedes da pensão já haviam se queixado desses incômodos roedores, que faziam desaparecer pequenos objetos, que a princípio não tinham grande valor. Mas se perdiam misteriosamente. Das minhas coisas, ontem alguns doces, hoje a miniatura de um automóvel, que enfeitava a mesinha de cabeceira e amanhã? Preocupava-me, também, os estragos que esses roedores poderiam fazer nas minhas roupas, que eram de boa qualidade e foram compradas com sacrifício. Ganhando pouco eu gastava com muita parcimônia e só depois de muito pensar. E andavam sumindo peças bem maiores do que um simples doce... Levantei a suspeita de que balas, doces e bombons poderiam ser os ratos que levavam mas objetos grandes, não. Dona Helena ouviu minhas queixas e não as levou a sério, alegando que não havia larápios entre os seus pensionistas e as coisas que sumiam eram de pouco valor. Eram ratos comuns e ela daria cabo deles em pouco tempo. Uma isca envenenada aqui, outra ali e eles iriam morrendo um a um. Cheguei a argumentar que ratos comiam doces, costumam enfeitar seus ninhos com uma ou outra ninharia, mas não agüentariam o peso de um canivete como o meu, de lâminas dobradas. Um hóspede recente, querendo impressionar, garantiu que era próprio desses bichos carregar peças de considerável tamanho para os ninhos. Diante da minha insistência, dona Helena disse em tom de crítica que as imagens distorcidas na parede do meu quarto andavam mexendo com a minha cabeça, afetando meu raciocínio, alargando minhas fantasias, revelando meus medos. Acabei cedendo, dando o assunto por encerrado.Mas um dia depois de tudo isso vi meu canivete nas mãos estranhas do Neco, um agregado que dona Helena recolheu não se sabe onde para ajudá-la nos serviços domésticos, nas tarefas menores. Desbastava um pedaço de pau e não se alterou quando o encarei de propósito. Talvez porque não fosse o meu canivete, cheguei a pensar. Mas era um tipo muito esquisito o moço, diferente, limítrofe entre a imbecilidade e a normalidade. Era mudo, tinha uns quinze anos de idade e o tamanho de uma criança de seis. Acolhido por piedade, não recebia muito carinho de sua protetora, que o tinha mais como um empregado barato, sentia-se pelo menos amparado e dava a impressão de estar seguro disto. Talvez por tudo isso o estranho e pequeno Ser Humano tenha se transformado num bicho de cozinha, alheio às pessoas, recusando-se a dar qualquer tipo de atenção, esgueirando-se sempre que nos aproximávamos. Comunicava-se com a sua patroa através de gestos acompanhados de chiados desagradáveis. Só se dirigia a ela, parecendo um animal doméstico. Com o restante das pessoas era prudente e desconfiado, fugindo rápido a qualquer aproximação. Seu jeito de mudar o movimento do corpo em intervalos de tempo, agachando-se e levantando-se, modificando com facilidade sua envergadura original, fazia com que parecesse um animal sem ossos. Era impossível não o compararmos a um rato, mesmo sendo improvável os casos de zoomorfismo. Isso mesmo, o rapaz parecia um rato, matreiro e assustado. Cabeça pequena desproporcional ao seu tamanho, orelhas grandes e retorcidas, rosto fino, olhos vivos, nariz pontiagudo como se fosse um focinho com ralos fios do bigodes projetados desordenadamente para a frente, que se moviam ao sopro das narinas. Ou eu estava ficando louco e obsessivo ou o jovem era realmente um rato, tamanha a semelhança, movendo-se como tal, arredio, ágil, esperto e ladrão. Pois não havia dúvida de que aquele era o meu canivete. Ele não teria como comprá-lo, eu afirmei, mas dona Helena na tentativa de defendê-lo garantiu-me que fora um presente. Tentaram convencer-me os amigos e colegas de pensão de que eu não deveria mais dormir com a janela aberta. As sombras na parede estavam afetando-me...
Quando Neco foi encontrado morto no quintal, havia indícios de envenenamento, confirmado posteriormente pelo laudo médico. Dona Helena parece que sentiu a morte do rapaz e sem muita convicção tentou absolvê-lo dos roubos de que era acusado. Só lamentou a ingenuidade dele, que o levou a provar os doces impregnados de raticida, que ela havia espalhado pelos cantos da casa. Sinceramente, eu nunca lhe vi o rabo, mas sei que é possível que ele o tivesse sob as calças...
domingo, 21 de dezembro de 2008
o passeio do gato
A máquina de escrever pipocava ininterrupta, consumindo o silêncio da tarde que o velho ruminava sonolento, fumando na varanda. Não era a máquina, eram os dedos ágeis de Saul. Na realidade nem eram os dedos, era a mente irrequieta do neto, laboriosa na arte de criar histórias pra concursos que nunca lhe deram prêmios. Afagou um filhote de pardal, que acabara de cair do ninho preso na viga que sustenta as telhas, ficando a imaginar um jeito de devolvê-lo são e salvo. A idade não lhe permitia idéias arrojadas e sentiu-se desamparado, calculando a altura entre os seus olhos e o teto. Teimoso, não era homem de desistir e sentindo-se impotente teve laivos de revolta. Acomodou-se ao notar que a máquina silenciara repentinamente. Aconchegando a avezinha na mão aberta acariciou-a com a ponta da barba macia feito algodão. Súbito, o neto apontou na porta vindo de dentro. O avô olhou-o com curiosidade...
- O que foi? – Perguntou o velho.
- Não consigo prosseguir o conto... – Respondeu Saul.
- Quer a minha sugestão? Leia até onde parou – disse o avô.
Sempre foram assim, incisivos, diretos, com a opinião do avô prevalecendo sempre, em razão do profundo respeito e admiração que nutria por ele. Saul voltou ao quarto e trouxe os textos inacabados.
- Intitulei-o “O Passeio Do Gato” – comentou e prosseguiu lendo: “Não quero que pensem que se trata de uma alegoria, quando em certos momentos eu narrar fatos conhecidos apenas pelo gato. É que eu entendo os bichanos, convivo com eles desde criança. Roçam nossas pernas chamando-nos à comunicação, miando insistentes se não são logo atendidos, balançando o rabo num processo nervoso que acompanha o corpo num eterno encolhe e espicha, arregalando os olhos quando verdes de ternuras persas e mistérios egípcios. Esse, era um gato bonito, de longos pelos negros herdados dos angorás e o os olhos oblíquos dos siameses, uma raça perdida nos meandros de várias miscigenações. Novo ainda, dividia a solidão de um pequeno apartamento com sua dona, uma digna senhora de coque na cabeça um óculos pequeno sobre o nariz adunco e que às vezes sorria. Modorrava suas horas de ócio interminável sobre almofadas distribuídas no sofá e nas poltronas da sala. Um bicho mimado, que tinha de tudo, ração especial, leite, escova para pentear a pelagem cheia de volteios, uma coleira contra as pulgas, uma caixa de grânulos perfumados para as suas necessidades fisiológicas, visitas regulares a uma clínica veterinária além de muito carinho. Só não conhecia e possuía a liberdade, poder superar aquelas paredes e ganhar a rua, que ele divisava através do vidro da janela sempre fechada. Ali, batia as patas, intrigado. Certa noite, alisava-se tranqüilo no parapeito, quando suas pupilas contráteis refletiram claridade nunca vista antes, do letreiro em luz vermelha recém inaugurado bem defronte e do poste apinhado de aranhas gordas no vaivém nas suas teias Percebeu que não havia a transparência opaca daquele nada, que lhe impedia o salto e a fuga. Esquecida aberta a janela o intrigava. Apalpou de leve o vazio e retraiu-se rápido, calculando a distância que o separava de uma pequena sacada abaixo. Com a agilidade e a graça dos felinos varou o ar atingindo o alvo. Pôs-se no chão com elegância e espreguiçou, lânguido, estudando o novo sítio com atenção. Uma larga porta entreaberta o convidava a entrar. De dentro vinham suspiros e gemidos de mulher. Misteriosamente ele, o gato, vacilava e não entrava..” - Fez-se uma pausa e Saul encarou o avô indagadoramente, que não demorou pra ranzinzar:
- Como é, esse gato vai entrar ou não? – gritou nervoso.
- Precisa entrar – respondeu o neto – mas tenho que encaixá-lo na história de forma sutil, como testemunha de uma cena erótica dentro desse quarto e não sei como fazê-lo...
O velho apertou o pássaro que cochilava em suas mãos, visivelmente alterado. Transformou-se o olhar, que se tornou rancoroso e um sulco maior até então desconhecido avolumou-se na testa. Saul temeu pela expressão e tentou justificar:
- Vou começar a apelar, vovô – disse.
Houve um silêncio reparador da cólera projetada. O velho lutava intimamente procurando ser compreensivo e arquitetava algo, com o subconsciente trabalhando lento à procura de frases que surtissem efeito.
- Já disse alguém respeitado e famoso no mundo das letras, que certos escritores “são espírito de vinho”, podem inflamar-se e produzir calor, mas somente isso.
- Mas, vovô, se eu não fizer como os outros ninguém vai me dar atenção – choramingou Saul.
Ante o desânimo do neto o avô abaixou o dedo que ficara no ar, suspenso diante do seu rosto. Voltou deliberadamente a atenção para o ninho do pardal, bem acima de sua cabeça, tentando controlar a ira, que foi esfriada com um muxoxo.
- Imagina, um neto pornógrafo! – E completou tentando manter a calma dizendo para si mesmo – Nietzsche também dizia, que cada palavra tem seu odor, portanto existem harmonia e dissonância de perfumes quando se monta uma frase, um período, uma história...
Saul, distanciando-se, permaneceu calado, notando que o avô procurava um adjetivo claro para o desencorajar de vez. Deixou que falasse bastante para depois tentar dissuadi-lo com brandura:
- Hoje é comum, vovô, se eu não por esse gato lá dentro, presenciando uma cena explícita de sexo, ninguém vai se interessar pelo meu conto.
- É a pornocracia na literatura!!! – o velho gritou possesso.
- Na antiguidade - tornou Saul - o Decamerão, de Bocaccio e o Satiricon, de Petrônio...
- ...Satirizavam, meu caro – interrompeu o avô – é diferente!
- Mas, vovô... voltou Saul com lamúria.
- Não deixe entrar esse gato!!! – vociferou o avô, como se aquela situação representasse um fato real e o gato existisse, estivesse ali diante deles na iminência de desencadear uma cena de sexo.
Com raiva, o ancião deu as costas e saiu, como sempre fazia quando imaginava-se desrespeitado. Minutos depois tentava abrir uma escada na varanda, para devolver ao ninho o filhote de pardal. Enquanto lidava resmungava de propósito para ser ouvido: “- ...se quer ser um escritor moderno escreva sobre ecologia, esoterismo, espiritualidade, otimismo e até mesmo ufologia; é moda, sabia?...
Tristonho, Saul quedou-se diante da velha máquina de escrever. Procurava convencer-se de que o avô estava enganado. Puxava das idéias um erotismo convincente com o gato atravessando aquela porta, símbolo do limite a que poderia chegar. Excitava-se com as imagens mentais que ia criando para o conto incompleto, todavia um poder estranho o impedia de prosseguir. A mesma força que o dominava desde a infância, quando os pais se separaram e passou a ficar sob os cuidados do avô. Cansou de ouvir o velho dizer, que certos escritores, mesmo famosos, não passavam de repórteres sensacionalistas e venais. “- Mercantilistas! Comentou em voz bem alta para que o neto escutasse, enquanto experimentava a façanha de subir uma escada. E teria que fazê-lo com apenas uma das mãos, pois a outra segurava o filhote de passarinho. Cansado pelo esforço, ainda resmungava: “- Machado de Assis, esse era um esteta, descrevendo com sutileza um provável adultério sem ferir sensibilidades”... Subia, agora, degrau por degrau, com dificuldade, falando sem parar: “- Machado dividiu seus leitores de forma magistral ao apresentar as dores do ciúme”
Diante das teclas de sua Olivetti antiga, Saul lutava para continuar o conto da forma que imaginava, porém as zangas do avô domavam-lhe o espírito ambicioso: - “Faça algo produto de seu cérebro” – bradou o velho já no alto da escada – Não da sua libido!
Ardia de contrariedade por não conseguir vencer a imposição moral do avô. De onde estava podia ouvir a respiração ofegante do velho, na difícil missão de alcançar a viga onde ficava o ninho e salvar o filhote de pardal. Temeu por ele e foi ver de perto, observando-o equilibrar-se na escada, com o pássaro em uma das mãos e a outra tentando com dificuldade localizar o abrigo de palha da avezinha, confiante e calma e pensou: “...que velhinho bravo aquele, cheio de opiniões, caráter firme e decidido, forte, arriscando-se a cair por um simples passarinho, transpirando por todos os poros, esticando pernas e braços até mais não poder para alcançar seu objetivo.” O neto sabia que ele não aceitaria ajuda, mas ofereceu assim mesmo, segurando a escada para que ela não movesse e o desequilibrasse. A resposta veio ríspida:
- Este é um problema meu, o seu é outro completamente diferente!
Naquela noite o avô passou mal. Muito. Foi preciso médico, aparelho de oxigênio, horas de vigília diante de sua cama enquanto Saul media a extensão do seu carinho e da sua culpa. O velho ficou assim alguns dias e algumas noites, sem poder falar e sequer abrir os olhos. Quando o fez era manhã de céu azul com muito brilho, os pássaros no quintal algazarrando uníssonos diante da janela envidraçada por onde o sol passava livre e morno. .Com profundo sentimento de orgulho encarou o neto, balbuciando com a barba úmida de saliva:
- Eu consegui, Saul e você?
O moço empertigou-se feito um gato. Sentou solenemente sobre a cauda, alisou com a destra o bigode negro, beijou a mão do avô saboreando a liberdade do sol de atravessar vidraças...
por saavedra fontes
- O que foi? – Perguntou o velho.
- Não consigo prosseguir o conto... – Respondeu Saul.
- Quer a minha sugestão? Leia até onde parou – disse o avô.
Sempre foram assim, incisivos, diretos, com a opinião do avô prevalecendo sempre, em razão do profundo respeito e admiração que nutria por ele. Saul voltou ao quarto e trouxe os textos inacabados.
- Intitulei-o “O Passeio Do Gato” – comentou e prosseguiu lendo: “Não quero que pensem que se trata de uma alegoria, quando em certos momentos eu narrar fatos conhecidos apenas pelo gato. É que eu entendo os bichanos, convivo com eles desde criança. Roçam nossas pernas chamando-nos à comunicação, miando insistentes se não são logo atendidos, balançando o rabo num processo nervoso que acompanha o corpo num eterno encolhe e espicha, arregalando os olhos quando verdes de ternuras persas e mistérios egípcios. Esse, era um gato bonito, de longos pelos negros herdados dos angorás e o os olhos oblíquos dos siameses, uma raça perdida nos meandros de várias miscigenações. Novo ainda, dividia a solidão de um pequeno apartamento com sua dona, uma digna senhora de coque na cabeça um óculos pequeno sobre o nariz adunco e que às vezes sorria. Modorrava suas horas de ócio interminável sobre almofadas distribuídas no sofá e nas poltronas da sala. Um bicho mimado, que tinha de tudo, ração especial, leite, escova para pentear a pelagem cheia de volteios, uma coleira contra as pulgas, uma caixa de grânulos perfumados para as suas necessidades fisiológicas, visitas regulares a uma clínica veterinária além de muito carinho. Só não conhecia e possuía a liberdade, poder superar aquelas paredes e ganhar a rua, que ele divisava através do vidro da janela sempre fechada. Ali, batia as patas, intrigado. Certa noite, alisava-se tranqüilo no parapeito, quando suas pupilas contráteis refletiram claridade nunca vista antes, do letreiro em luz vermelha recém inaugurado bem defronte e do poste apinhado de aranhas gordas no vaivém nas suas teias Percebeu que não havia a transparência opaca daquele nada, que lhe impedia o salto e a fuga. Esquecida aberta a janela o intrigava. Apalpou de leve o vazio e retraiu-se rápido, calculando a distância que o separava de uma pequena sacada abaixo. Com a agilidade e a graça dos felinos varou o ar atingindo o alvo. Pôs-se no chão com elegância e espreguiçou, lânguido, estudando o novo sítio com atenção. Uma larga porta entreaberta o convidava a entrar. De dentro vinham suspiros e gemidos de mulher. Misteriosamente ele, o gato, vacilava e não entrava..” - Fez-se uma pausa e Saul encarou o avô indagadoramente, que não demorou pra ranzinzar:
- Como é, esse gato vai entrar ou não? – gritou nervoso.
- Precisa entrar – respondeu o neto – mas tenho que encaixá-lo na história de forma sutil, como testemunha de uma cena erótica dentro desse quarto e não sei como fazê-lo...
O velho apertou o pássaro que cochilava em suas mãos, visivelmente alterado. Transformou-se o olhar, que se tornou rancoroso e um sulco maior até então desconhecido avolumou-se na testa. Saul temeu pela expressão e tentou justificar:
- Vou começar a apelar, vovô – disse.
Houve um silêncio reparador da cólera projetada. O velho lutava intimamente procurando ser compreensivo e arquitetava algo, com o subconsciente trabalhando lento à procura de frases que surtissem efeito.
- Já disse alguém respeitado e famoso no mundo das letras, que certos escritores “são espírito de vinho”, podem inflamar-se e produzir calor, mas somente isso.
- Mas, vovô, se eu não fizer como os outros ninguém vai me dar atenção – choramingou Saul.
Ante o desânimo do neto o avô abaixou o dedo que ficara no ar, suspenso diante do seu rosto. Voltou deliberadamente a atenção para o ninho do pardal, bem acima de sua cabeça, tentando controlar a ira, que foi esfriada com um muxoxo.
- Imagina, um neto pornógrafo! – E completou tentando manter a calma dizendo para si mesmo – Nietzsche também dizia, que cada palavra tem seu odor, portanto existem harmonia e dissonância de perfumes quando se monta uma frase, um período, uma história...
Saul, distanciando-se, permaneceu calado, notando que o avô procurava um adjetivo claro para o desencorajar de vez. Deixou que falasse bastante para depois tentar dissuadi-lo com brandura:
- Hoje é comum, vovô, se eu não por esse gato lá dentro, presenciando uma cena explícita de sexo, ninguém vai se interessar pelo meu conto.
- É a pornocracia na literatura!!! – o velho gritou possesso.
- Na antiguidade - tornou Saul - o Decamerão, de Bocaccio e o Satiricon, de Petrônio...
- ...Satirizavam, meu caro – interrompeu o avô – é diferente!
- Mas, vovô... voltou Saul com lamúria.
- Não deixe entrar esse gato!!! – vociferou o avô, como se aquela situação representasse um fato real e o gato existisse, estivesse ali diante deles na iminência de desencadear uma cena de sexo.
Com raiva, o ancião deu as costas e saiu, como sempre fazia quando imaginava-se desrespeitado. Minutos depois tentava abrir uma escada na varanda, para devolver ao ninho o filhote de pardal. Enquanto lidava resmungava de propósito para ser ouvido: “- ...se quer ser um escritor moderno escreva sobre ecologia, esoterismo, espiritualidade, otimismo e até mesmo ufologia; é moda, sabia?...
Tristonho, Saul quedou-se diante da velha máquina de escrever. Procurava convencer-se de que o avô estava enganado. Puxava das idéias um erotismo convincente com o gato atravessando aquela porta, símbolo do limite a que poderia chegar. Excitava-se com as imagens mentais que ia criando para o conto incompleto, todavia um poder estranho o impedia de prosseguir. A mesma força que o dominava desde a infância, quando os pais se separaram e passou a ficar sob os cuidados do avô. Cansou de ouvir o velho dizer, que certos escritores, mesmo famosos, não passavam de repórteres sensacionalistas e venais. “- Mercantilistas! Comentou em voz bem alta para que o neto escutasse, enquanto experimentava a façanha de subir uma escada. E teria que fazê-lo com apenas uma das mãos, pois a outra segurava o filhote de passarinho. Cansado pelo esforço, ainda resmungava: “- Machado de Assis, esse era um esteta, descrevendo com sutileza um provável adultério sem ferir sensibilidades”... Subia, agora, degrau por degrau, com dificuldade, falando sem parar: “- Machado dividiu seus leitores de forma magistral ao apresentar as dores do ciúme”
Diante das teclas de sua Olivetti antiga, Saul lutava para continuar o conto da forma que imaginava, porém as zangas do avô domavam-lhe o espírito ambicioso: - “Faça algo produto de seu cérebro” – bradou o velho já no alto da escada – Não da sua libido!
Ardia de contrariedade por não conseguir vencer a imposição moral do avô. De onde estava podia ouvir a respiração ofegante do velho, na difícil missão de alcançar a viga onde ficava o ninho e salvar o filhote de pardal. Temeu por ele e foi ver de perto, observando-o equilibrar-se na escada, com o pássaro em uma das mãos e a outra tentando com dificuldade localizar o abrigo de palha da avezinha, confiante e calma e pensou: “...que velhinho bravo aquele, cheio de opiniões, caráter firme e decidido, forte, arriscando-se a cair por um simples passarinho, transpirando por todos os poros, esticando pernas e braços até mais não poder para alcançar seu objetivo.” O neto sabia que ele não aceitaria ajuda, mas ofereceu assim mesmo, segurando a escada para que ela não movesse e o desequilibrasse. A resposta veio ríspida:
- Este é um problema meu, o seu é outro completamente diferente!
Naquela noite o avô passou mal. Muito. Foi preciso médico, aparelho de oxigênio, horas de vigília diante de sua cama enquanto Saul media a extensão do seu carinho e da sua culpa. O velho ficou assim alguns dias e algumas noites, sem poder falar e sequer abrir os olhos. Quando o fez era manhã de céu azul com muito brilho, os pássaros no quintal algazarrando uníssonos diante da janela envidraçada por onde o sol passava livre e morno. .Com profundo sentimento de orgulho encarou o neto, balbuciando com a barba úmida de saliva:
- Eu consegui, Saul e você?
O moço empertigou-se feito um gato. Sentou solenemente sobre a cauda, alisou com a destra o bigode negro, beijou a mão do avô saboreando a liberdade do sol de atravessar vidraças...
por saavedra fontes
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