domingo, 21 de dezembro de 2008

o passeio do gato


A máquina de escrever pipocava ininterrupta, consumindo o silêncio da tarde que o velho ruminava sonolento, fumando na varanda. Não era a máquina, eram os dedos ágeis de Saul. Na realidade nem eram os dedos, era a mente irrequieta do neto, laboriosa na arte de criar histórias pra concursos que nunca lhe deram prêmios. Afagou um filhote de pardal, que acabara de cair do ninho preso na viga que sustenta as telhas, ficando a imaginar um jeito de devolvê-lo são e salvo. A idade não lhe permitia idéias arrojadas e sentiu-se desamparado, calculando a altura entre os seus olhos e o teto. Teimoso, não era homem de desistir e sentindo-se impotente teve laivos de revolta. Acomodou-se ao notar que a máquina silenciara repentinamente. Aconchegando a avezinha na mão aberta acariciou-a com a ponta da barba macia feito algodão. Súbito, o neto apontou na porta vindo de dentro. O avô olhou-o com curiosidade...
- O que foi? – Perguntou o velho.
- Não consigo prosseguir o conto... – Respondeu Saul.
- Quer a minha sugestão? Leia até onde parou – disse o avô.
Sempre foram assim, incisivos, diretos, com a opinião do avô prevalecendo sempre, em razão do profundo respeito e admiração que nutria por ele. Saul voltou ao quarto e trouxe os textos inacabados.
- Intitulei-o “O Passeio Do Gato” – comentou e prosseguiu lendo: “Não quero que pensem que se trata de uma alegoria, quando em certos momentos eu narrar fatos conhecidos apenas pelo gato. É que eu entendo os bichanos, convivo com eles desde criança. Roçam nossas pernas chamando-nos à comunicação, miando insistentes se não são logo atendidos, balançando o rabo num processo nervoso que acompanha o corpo num eterno encolhe e espicha, arregalando os olhos quando verdes de ternuras persas e mistérios egípcios. Esse, era um gato bonito, de longos pelos negros herdados dos angorás e o os olhos oblíquos dos siameses, uma raça perdida nos meandros de várias miscigenações. Novo ainda, dividia a solidão de um pequeno apartamento com sua dona, uma digna senhora de coque na cabeça um óculos pequeno sobre o nariz adunco e que às vezes sorria. Modorrava suas horas de ócio interminável sobre almofadas distribuídas no sofá e nas poltronas da sala. Um bicho mimado, que tinha de tudo, ração especial, leite, escova para pentear a pelagem cheia de volteios, uma coleira contra as pulgas, uma caixa de grânulos perfumados para as suas necessidades fisiológicas, visitas regulares a uma clínica veterinária além de muito carinho. Só não conhecia e possuía a liberdade, poder superar aquelas paredes e ganhar a rua, que ele divisava através do vidro da janela sempre fechada. Ali, batia as patas, intrigado. Certa noite, alisava-se tranqüilo no parapeito, quando suas pupilas contráteis refletiram claridade nunca vista antes, do letreiro em luz vermelha recém inaugurado bem defronte e do poste apinhado de aranhas gordas no vaivém nas suas teias Percebeu que não havia a transparência opaca daquele nada, que lhe impedia o salto e a fuga. Esquecida aberta a janela o intrigava. Apalpou de leve o vazio e retraiu-se rápido, calculando a distância que o separava de uma pequena sacada abaixo. Com a agilidade e a graça dos felinos varou o ar atingindo o alvo. Pôs-se no chão com elegância e espreguiçou, lânguido, estudando o novo sítio com atenção. Uma larga porta entreaberta o convidava a entrar. De dentro vinham suspiros e gemidos de mulher. Misteriosamente ele, o gato, vacilava e não entrava..” - Fez-se uma pausa e Saul encarou o avô indagadoramente, que não demorou pra ranzinzar:
- Como é, esse gato vai entrar ou não? – gritou nervoso.
- Precisa entrar – respondeu o neto – mas tenho que encaixá-lo na história de forma sutil, como testemunha de uma cena erótica dentro desse quarto e não sei como fazê-lo...
O velho apertou o pássaro que cochilava em suas mãos, visivelmente alterado. Transformou-se o olhar, que se tornou rancoroso e um sulco maior até então desconhecido avolumou-se na testa. Saul temeu pela expressão e tentou justificar:
- Vou começar a apelar, vovô – disse.
Houve um silêncio reparador da cólera projetada. O velho lutava intimamente procurando ser compreensivo e arquitetava algo, com o subconsciente trabalhando lento à procura de frases que surtissem efeito.
- Já disse alguém respeitado e famoso no mundo das letras, que certos escritores “são espírito de vinho”, podem inflamar-se e produzir calor, mas somente isso.
- Mas, vovô, se eu não fizer como os outros ninguém vai me dar atenção – choramingou Saul.
Ante o desânimo do neto o avô abaixou o dedo que ficara no ar, suspenso diante do seu rosto. Voltou deliberadamente a atenção para o ninho do pardal, bem acima de sua cabeça, tentando controlar a ira, que foi esfriada com um muxoxo.
- Imagina, um neto pornógrafo! – E completou tentando manter a calma dizendo para si mesmo – Nietzsche também dizia, que cada palavra tem seu odor, portanto existem harmonia e dissonância de perfumes quando se monta uma frase, um período, uma história...
Saul, distanciando-se, permaneceu calado, notando que o avô procurava um adjetivo claro para o desencorajar de vez. Deixou que falasse bastante para depois tentar dissuadi-lo com brandura:
- Hoje é comum, vovô, se eu não por esse gato lá dentro, presenciando uma cena explícita de sexo, ninguém vai se interessar pelo meu conto.
- É a pornocracia na literatura!!! – o velho gritou possesso.
- Na antiguidade - tornou Saul - o Decamerão, de Bocaccio e o Satiricon, de Petrônio...
- ...Satirizavam, meu caro – interrompeu o avô – é diferente!
- Mas, vovô... voltou Saul com lamúria.
- Não deixe entrar esse gato!!! – vociferou o avô, como se aquela situação representasse um fato real e o gato existisse, estivesse ali diante deles na iminência de desencadear uma cena de sexo.
Com raiva, o ancião deu as costas e saiu, como sempre fazia quando imaginava-se desrespeitado. Minutos depois tentava abrir uma escada na varanda, para devolver ao ninho o filhote de pardal. Enquanto lidava resmungava de propósito para ser ouvido: “- ...se quer ser um escritor moderno escreva sobre ecologia, esoterismo, espiritualidade, otimismo e até mesmo ufologia; é moda, sabia?...
Tristonho, Saul quedou-se diante da velha máquina de escrever. Procurava convencer-se de que o avô estava enganado. Puxava das idéias um erotismo convincente com o gato atravessando aquela porta, símbolo do limite a que poderia chegar. Excitava-se com as imagens mentais que ia criando para o conto incompleto, todavia um poder estranho o impedia de prosseguir. A mesma força que o dominava desde a infância, quando os pais se separaram e passou a ficar sob os cuidados do avô. Cansou de ouvir o velho dizer, que certos escritores, mesmo famosos, não passavam de repórteres sensacionalistas e venais. “- Mercantilistas! Comentou em voz bem alta para que o neto escutasse, enquanto experimentava a façanha de subir uma escada. E teria que fazê-lo com apenas uma das mãos, pois a outra segurava o filhote de passarinho. Cansado pelo esforço, ainda resmungava: “- Machado de Assis, esse era um esteta, descrevendo com sutileza um provável adultério sem ferir sensibilidades”... Subia, agora, degrau por degrau, com dificuldade, falando sem parar: “- Machado dividiu seus leitores de forma magistral ao apresentar as dores do ciúme”
Diante das teclas de sua Olivetti antiga, Saul lutava para continuar o conto da forma que imaginava, porém as zangas do avô domavam-lhe o espírito ambicioso: - “Faça algo produto de seu cérebro” – bradou o velho já no alto da escada – Não da sua libido!
Ardia de contrariedade por não conseguir vencer a imposição moral do avô. De onde estava podia ouvir a respiração ofegante do velho, na difícil missão de alcançar a viga onde ficava o ninho e salvar o filhote de pardal. Temeu por ele e foi ver de perto, observando-o equilibrar-se na escada, com o pássaro em uma das mãos e a outra tentando com dificuldade localizar o abrigo de palha da avezinha, confiante e calma e pensou: “...que velhinho bravo aquele, cheio de opiniões, caráter firme e decidido, forte, arriscando-se a cair por um simples passarinho, transpirando por todos os poros, esticando pernas e braços até mais não poder para alcançar seu objetivo.” O neto sabia que ele não aceitaria ajuda, mas ofereceu assim mesmo, segurando a escada para que ela não movesse e o desequilibrasse. A resposta veio ríspida:
- Este é um problema meu, o seu é outro completamente diferente!
Naquela noite o avô passou mal. Muito. Foi preciso médico, aparelho de oxigênio, horas de vigília diante de sua cama enquanto Saul media a extensão do seu carinho e da sua culpa. O velho ficou assim alguns dias e algumas noites, sem poder falar e sequer abrir os olhos. Quando o fez era manhã de céu azul com muito brilho, os pássaros no quintal algazarrando uníssonos diante da janela envidraçada por onde o sol passava livre e morno. .Com profundo sentimento de orgulho encarou o neto, balbuciando com a barba úmida de saliva:
- Eu consegui, Saul e você?
O moço empertigou-se feito um gato. Sentou solenemente sobre a cauda, alisou com a destra o bigode negro, beijou a mão do avô saboreando a liberdade do sol de atravessar vidraças...

por saavedra fontes

Um comentário:

  1. Aí está o seu blog, agora aproveite para colocá-lo em dia e podermos saborear cada história e poemas.
    rosilene

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