domingo, 21 de dezembro de 2008

o rato

Na rua, a luz amarelada de um poste antigo, desses feito de trilho de estrada de ferro. Entre ele e a minha janela aberta o muro no jardim. O foco luminoso, passando sobre o muro, transfere para a parede do meu quarto sombras que se movem como numa tela de cinema. Tão logo anoitece há um interminável movimento de insetos, cujas antenas parecem triplicadas de tamanho, que voam e pousam, andam e param, se entregam à sanha dos predadores. Abocanhando suas presas as lagartixas tomam a forma de gigantescos sáurios pré-históricos e o gato, que acaba de passar, lembra-me um tigre de andar ondulado e intenções definidas. Os morcegos não passam diante da luz, mas deixam o ruído de suas asas, impressionando meus ouvidos e minha mente. Junto à lâmpada as teias balançam sopradas pela aragem ou pelo movimento das aranhas em sua faina noturna. E estas, quando alcançam por alguns segundos o facho luminoso, tornam sua imagem tétrica, liberando minhas fantasias, que vão buscar distante o pio das corujas. À noite, na parede de meu quarto, as silhuetas mudam constantemente, intercalando atrações que me divertem e me assustam. Habituei-me a deitar de rosto voltado para as cenas bizarras, distraindo-me com as sombras enquanto espero o sono chegar. Às vezes acordo de madrugada e repito o exercício para dormir.
Certa vez, num desses intervalos de sono, assustei-me com um forte barulho e cheguei a ver o vulto ágil de um enorme rato escapando através da janela. Dei-me conta de que exagerava na imaginação ou, talvez, por algum fenômeno inexplicável a projeção se ampliara de maneira insólita, passando a impressão de que o bicho tinha o tamanho de uma criança. Fazia tempo que andavam sumindo bombons que eu geralmente comprava, o único luxo permitido pelo meu salário minguado. Todos os hóspedes da pensão já haviam se queixado desses incômodos roedores, que faziam desaparecer pequenos objetos, que a princípio não tinham grande valor. Mas se perdiam misteriosamente. Das minhas coisas, ontem alguns doces, hoje a miniatura de um automóvel, que enfeitava a mesinha de cabeceira e amanhã? Preocupava-me, também, os estragos que esses roedores poderiam fazer nas minhas roupas, que eram de boa qualidade e foram compradas com sacrifício. Ganhando pouco eu gastava com muita parcimônia e só depois de muito pensar. E andavam sumindo peças bem maiores do que um simples doce... Levantei a suspeita de que balas, doces e bombons poderiam ser os ratos que levavam mas objetos grandes, não. Dona Helena ouviu minhas queixas e não as levou a sério, alegando que não havia larápios entre os seus pensionistas e as coisas que sumiam eram de pouco valor. Eram ratos comuns e ela daria cabo deles em pouco tempo. Uma isca envenenada aqui, outra ali e eles iriam morrendo um a um. Cheguei a argumentar que ratos comiam doces, costumam enfeitar seus ninhos com uma ou outra ninharia, mas não agüentariam o peso de um canivete como o meu, de lâminas dobradas. Um hóspede recente, querendo impressionar, garantiu que era próprio desses bichos carregar peças de considerável tamanho para os ninhos. Diante da minha insistência, dona Helena disse em tom de crítica que as imagens distorcidas na parede do meu quarto andavam mexendo com a minha cabeça, afetando meu raciocínio, alargando minhas fantasias, revelando meus medos. Acabei cedendo, dando o assunto por encerrado.Mas um dia depois de tudo isso vi meu canivete nas mãos estranhas do Neco, um agregado que dona Helena recolheu não se sabe onde para ajudá-la nos serviços domésticos, nas tarefas menores. Desbastava um pedaço de pau e não se alterou quando o encarei de propósito. Talvez porque não fosse o meu canivete, cheguei a pensar. Mas era um tipo muito esquisito o moço, diferente, limítrofe entre a imbecilidade e a normalidade. Era mudo, tinha uns quinze anos de idade e o tamanho de uma criança de seis. Acolhido por piedade, não recebia muito carinho de sua protetora, que o tinha mais como um empregado barato, sentia-se pelo menos amparado e dava a impressão de estar seguro disto. Talvez por tudo isso o estranho e pequeno Ser Humano tenha se transformado num bicho de cozinha, alheio às pessoas, recusando-se a dar qualquer tipo de atenção, esgueirando-se sempre que nos aproximávamos. Comunicava-se com a sua patroa através de gestos acompanhados de chiados desagradáveis. Só se dirigia a ela, parecendo um animal doméstico. Com o restante das pessoas era prudente e desconfiado, fugindo rápido a qualquer aproximação. Seu jeito de mudar o movimento do corpo em intervalos de tempo, agachando-se e levantando-se, modificando com facilidade sua envergadura original, fazia com que parecesse um animal sem ossos. Era impossível não o compararmos a um rato, mesmo sendo improvável os casos de zoomorfismo. Isso mesmo, o rapaz parecia um rato, matreiro e assustado. Cabeça pequena desproporcional ao seu tamanho, orelhas grandes e retorcidas, rosto fino, olhos vivos, nariz pontiagudo como se fosse um focinho com ralos fios do bigodes projetados desordenadamente para a frente, que se moviam ao sopro das narinas. Ou eu estava ficando louco e obsessivo ou o jovem era realmente um rato, tamanha a semelhança, movendo-se como tal, arredio, ágil, esperto e ladrão. Pois não havia dúvida de que aquele era o meu canivete. Ele não teria como comprá-lo, eu afirmei, mas dona Helena na tentativa de defendê-lo garantiu-me que fora um presente. Tentaram convencer-me os amigos e colegas de pensão de que eu não deveria mais dormir com a janela aberta. As sombras na parede estavam afetando-me...
Quando Neco foi encontrado morto no quintal, havia indícios de envenenamento, confirmado posteriormente pelo laudo médico. Dona Helena parece que sentiu a morte do rapaz e sem muita convicção tentou absolvê-lo dos roubos de que era acusado. Só lamentou a ingenuidade dele, que o levou a provar os doces impregnados de raticida, que ela havia espalhado pelos cantos da casa. Sinceramente, eu nunca lhe vi o rabo, mas sei que é possível que ele o tivesse sob as calças...

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