domingo, 24 de maio de 2009

à clef

Eu? Ulisses.
Sonhador estereotipado,
auto preso na vida e solto nas ilusões.
Ígneo clichê de todo ser humano,
santo, herói e vilão,
manipulador do verbo e do palavrão

- judas intencional!

Ah! Lá vão as sereias,

como posso fingir que não as vejo?...

po saavedra fontes

bodas

E ainda somos amantes...
O olhar mais doce do que antes
sem o brilho selvagem da paixão
sem a fúria indomável do desejo
com o desejo da fúria num lampejo
num átimo de prazer e emoção.

E ainda somos amantes...
Buscamos na lua e nas estrelas
o encanto que rege a natureza
do homem e da mulher
e o tornamos parte de nós mesmos
nos encontros sutis de nossas mãos
de nossos corpos mornos já cansados
que o hábito de amar não consentiu morresse
porque somos assim e assim vivemos
permitindo ao tempo que nos leve
ao sabor dos sonhos que mantemos.

E ainda somos amantes...
Foram pérolas, amor, não foram pedras
que os nossos pés pisaram.
No curso de nossa caminhada
ninguém foi mais querido
ninguém foi tão amada!

As horas mais recentes
os dias mais distantes
sem pudor revelam
que ainda somos amantes...

por saavedra fontes

canto fúnebre

Foi de pedra o primeiro verso
deste surrado peito em sonho imerso,
primeira manifestação de tédio.
Pedra bruta, opaca, arremessada a esmo,
fragmentada em partes de mim mesmo
soletraram palavras sem valia...

Foi de mármore a primeira rima,
esculpida de mágoas e auto estima,
revelação ambígua da verdade.
Calcário revitalizado e rude
pego entre espaço e tempo, como pude,
sonorizaram sílabas, nada mais.

Só depois foram cristais polidos
nas lágrimas sorvidas sem gemidos
entre um cálice e outro de euforia,
entre pequenas doses de alegria.

E como sinos que dobram na penumbra
de uma noite que perco na lembrança,
canto poesia da criança
eivada de tristezas e angústias.

Subo e desço ao calvário, compadeço
de ser fruto do acaso e da ironia
o mais tolo de todos os mortais,
brinquedo de QUEM faz a vida e a morte
levando-me incompleto aos funerais.

por saavedra fontes

minima de males

Um homem prendeu o tempo.
Travessuras de bêbado
simplesmente.
Segurou os ponteiros com as mãos
e gritou ao vento:
“- Vem de lá quem possa mais que eu, que seguro o tempo?”
E uma leve rajada o atirou ao solo...
Seria o vento condutor do tempo?
ou é o homem nada mais que um ébrio,
Nada mais?...

por saavedra fontes